Perguntou a louca no hospício. Sim, eu falo. Mas não respondi em palavras, dei um suspiro e minha mãe respondeu por mim: o gato comeu a língua dela. A louca acreditou, ficou estarrecida diante da idéia de uma menina não ter língua para falar. Minha mãe, percebendo sua ingenuidade continuou se divertindo: lá em casa temos um gato e um dia ele comeu a língua dela. Os olhos da louca se esbugalharam e sua boca sem dentes soltou um “nossa” de olho em mim, como se eu fosse algo bizarro criado pela natureza.
É mentira. Pronto falei. A louca soltou uma gostosa gargalhada e passou a discorrer de sua vida para nós. Só voltei a falar novamente quando ela disse que eu deveria ter treze anos. Mais uma vez a louca ficou abismada quando respondi ter 24.
Sabendo minha idade e concluindo que ainda era nova demais, disse que meus problemas eram simples e em pouco tempo eu estaria bem de novo. Mal sabe ela o meu desejo secreto de deixar a vida, pois ela me dói em todos os lugares do corpo. E que eu sou minha maior inimiga. Mas fiquei pensando: ela é a segunda pessoa doida dentro daquele hospício que diz que meus problemas são simples mesmo sem saber quais são e que logo estaria boa, como se soubessem disso através de minha idade. Mas loucos não perguntam, eles já conhecem todas as respostas, por isso são loucos.
A maior dor de todas sempre é a nossa.
ResponderExcluirSó Deus pode saber o que nós realmente sentimos.
Talvez isto seja até um ato de misericórdia, pois se sentissemos a plenitude da dor dos outros, não conseguiríamos sobreviver a esta vida.
"Talvez isto seja até um ato de misericórdia, pois se sentissemos a plenitude da dor dos outros, não conseguiríamos sobreviver a esta vida."
ResponderExcluirTalvez nem mesmo a nossa, pois imagina se pudessemos carregar a dor outro, que somando-se a nossa, seria um peso, uma cruz que jamais poderiamos carregar.
Bom....eu sinto a dor dos outros....na rua mesmo....é algo meio sensitivo. Machuca muito, mas é uma boa experiência.
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