Quando me desfiz dos meus sonhos e dos meus amores, vesti uma liberdade que não cabia em mim. Ela era pesada e me pinicava em todos os cantos. Chorei. Chorei aliviada e de dor. Eu não sabia que a liberdade podia doer. Tive medo dela e de certo, ela teve de mim, pois não veio de forma súbita, veio sorrateira, esgueirando-se pelo chão, como uma brisa leve que tocava meu rosto. Era assustador! Tive que carregá-la por muito tempo e sofria a cada passo que dava. Acreditei que era indigna dela ou que ela veio em mau momento, pois nós duas brigávamos cruelmente, sem medidas e sem palavras. Eram tapas ocos e surdos, porém doloridos. Sabíamos não ter vencedor, pois era uma briga eterna.
Quando eu era mais jovem, não podia sair de casa, e desde cedo tive muitos compromissos que tomavam todo o meu tempo. Trabalhava, estudava e fazia diversos cursos. Nunca fui inteiramente livre para fazer o que bem quisesse. Agora, depois de adulta, tenho horas e horas para dedicar somente ao que quero devido à ironia do destino. Achei que ia gostar, mas tudo que foge do meu conhecer, me assusta e a tal liberdade em vez de me levar ao paraíso, me levou ao inferno, pois agora em vez de andar em linha reta como sempre fiz, tenho diversos caminhos para escolher e escolher nem sempre é fácil por sempre ser um mistério. Não gosto de mistérios, de “não saber” e a liberdade proporciona tudo isso. A liberdade é uma coisa muito, mas muito séria e requer responsabilidades. E eu odeio responsabilidades.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
"Ela não fala?"
Perguntou a louca no hospício. Sim, eu falo. Mas não respondi em palavras, dei um suspiro e minha mãe respondeu por mim: o gato comeu a língua dela. A louca acreditou, ficou estarrecida diante da idéia de uma menina não ter língua para falar. Minha mãe, percebendo sua ingenuidade continuou se divertindo: lá em casa temos um gato e um dia ele comeu a língua dela. Os olhos da louca se esbugalharam e sua boca sem dentes soltou um “nossa” de olho em mim, como se eu fosse algo bizarro criado pela natureza.
É mentira. Pronto falei. A louca soltou uma gostosa gargalhada e passou a discorrer de sua vida para nós. Só voltei a falar novamente quando ela disse que eu deveria ter treze anos. Mais uma vez a louca ficou abismada quando respondi ter 24.
Sabendo minha idade e concluindo que ainda era nova demais, disse que meus problemas eram simples e em pouco tempo eu estaria bem de novo. Mal sabe ela o meu desejo secreto de deixar a vida, pois ela me dói em todos os lugares do corpo. E que eu sou minha maior inimiga. Mas fiquei pensando: ela é a segunda pessoa doida dentro daquele hospício que diz que meus problemas são simples mesmo sem saber quais são e que logo estaria boa, como se soubessem disso através de minha idade. Mas loucos não perguntam, eles já conhecem todas as respostas, por isso são loucos.
É mentira. Pronto falei. A louca soltou uma gostosa gargalhada e passou a discorrer de sua vida para nós. Só voltei a falar novamente quando ela disse que eu deveria ter treze anos. Mais uma vez a louca ficou abismada quando respondi ter 24.
Sabendo minha idade e concluindo que ainda era nova demais, disse que meus problemas eram simples e em pouco tempo eu estaria bem de novo. Mal sabe ela o meu desejo secreto de deixar a vida, pois ela me dói em todos os lugares do corpo. E que eu sou minha maior inimiga. Mas fiquei pensando: ela é a segunda pessoa doida dentro daquele hospício que diz que meus problemas são simples mesmo sem saber quais são e que logo estaria boa, como se soubessem disso através de minha idade. Mas loucos não perguntam, eles já conhecem todas as respostas, por isso são loucos.
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